Sexta-feira, 26 de dezembro de 2014, Paris, França.
Último dia em Paris. Dia do tour cultural parisiense. Museu D’Orsay,
Louvre, Versalhes - este, na verdade, nem em Paris fica. Chegar às nove ao
primeiro museu, ficar duas horas, almoçar, ir a Versalhes, ficar entre três e
quatro horas e ir ao Louvre. Era o plano. Ela acordou às nove e, como em todos
os dias, começou a lutar para despertá-lo. Nunca cumpriam os planos, nunca
cumpriam os horários e com muita sorte ainda não tinham perdido nenhum trem nem
nenhum voo. Com muita luta, chegaram ao D’Orsay às dez e meia, entraram quase às
onze e desperdiçaram muitos euros, não lhes foi possível ver quase nada. Não havia
tempo, simplesmente. Era isso ou perder Versalhes, Louvre, então, tchau D’Orsay,
foi bom o meio encontro.
Versalhes ficava um pouco distante do centro de Paris, eram muitos
minutos de trem até lá. Os arredores eram muito tranquilos, pacatos. Quem diria
que ali vivera o tão badalado rei Luís XIV. Era tudo mais melancólico, doce,
calmo e impressionantemente frio. Puta que pariu, como era frio!
O palácio do rei sol era tão impressionante que ela que nunca estivera
ali, mal conseguia entender-se de fato ali, sentia-se dentro de um livro de história.
Ele, que já estivera, movia-se encantado como uma criança. Aliás, comportar-se
como uma criança era algo inerente à personalidade dele, às vezes, chegava a
assustá-la. Quando menos esperava, deparava-se com um garotinho em seus braços
a pedir carinho em um tom de voz que não ia além dos oito anos. Amor, estranho
amor...
Era novamente um dia bastante nublado, o sol parecia ter sido apenas uma
cortesia natalina. Fora, nos imensos jardins do palácio, estava lindamente
triste. Ela olhava, longe, longe... Quantos se haverão amado em meio àquela
pintura tão real... Princesas, reis, súditos, gente normal. Mas ela não amaria
ninguém ali, nem seria amada e ponto.
Quando chegaram ao jardim, o dia já estava se despedindo. O frio era
cortante, tão cortante quanto as palavras dele que vez ou outra faziam questão
de reafirmar a ela, não somos namorados, não exija de mim mais que as migalhas
que às vezes te ofereço. Ao menos era assim que ela ouvia, acrescido de um não
insista, você não é boa o suficiente para mim. Queria tão pouco, um abraço que
a protegesse do frio, uma palavra de carinho e uma gentileza como pedir o
lanche para ela já seriam suficientes. Mas para ele já era demais. Não entendia
a necessidade dela e aborrecia-lhe a insistência. Ela cansou de tanto suportar,
afastou-o e as lágrimas rolaram-lhe livremente pela face. Naquele momento, algo
naquela cena mexeu com ele. Percebeu enfim que a machucara de verdade, pela
primeira vez, ela sequer o queria por perto. Pela primeira vez, ela lhe dizia
não. Ele se perguntou o que estava fazendo. Queria consertar aquilo, mas não sabia
o que fazer, o que dizer. Afastou-se como ela pedira, acompanhou-a de longe e
em silencio, a inventar meios de tornar aquilo menos doloroso. Na saída, ele a
abraçou, ela chorou ainda mais. Que falta ela sentia daquele carinho, que
triste que ele não pudesse ser sempre assim. A viagem de trem até Paris foi
confortante. Eles dormiram no ombro um do outro. Há quanto tempo não o faziam? Nesses
poucos momentos de ternura, emanava deles uma beleza, uma paz...
O passeio no Louvre era a última parada de Paris, despediam-se da cidade
mais amada e comentada do mundo em grande estilo. A despedida foi tão demorada
que à hora do jantar a impessoalidade voltou a dar-lhes um beijo.
Já na cama, quase adormecida, ela sentiu a mão dele percorrer-lhe as
costas e estremeceu. Mas já não queria seguir com a síndrome do dia seguinte,
cada vez que se entregava a ele sentia-se mais dependente daquele sentimento. Lutou
para não entregar-se, mas ela era pequena, frágil, ele a teve facilmente presa
em seus braços. Quando já o corpo dela deslizava sobre dele, ela indagou-lhe se não lhe importava machuca-la e ele se importou. Como à tarde no jardim, ele
percebeu que a feria e renunciou ao próprio prazer. Não queria fazê-la sofrer,
mas como era bom estar dentro dela... E na última noite noite em Paris, eles
adormeceram sobre o próprio desejo.

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