segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

A arte do desencontro

Segunda-feira, 22 de dezembro de 2014, Amsterdã, Holanda.
Para ela, Amsterdã era como um grande formigueiro muito bem planejado. Não havia espaço, mas todos chegavam a todos os lugares sem muitos problemas. Havia gente de todos os tipos por onde quer que você nem pudesse imaginar, e os edifícios pareciam brotar de onde não deveriam caber. Tudo muito antigo e lindo, lindo de uma forma estranha. Mas ela estava cansada, cansada de correr para tentar chegar e cansada da sensação de nunca estar.
Ele sentia-se em casa. Conhecia o lugar, inclusive morara ali há cerca de um ano. Não via muita graça naquilo tudo, exceto nas garotas de rostos perfeitos que surgiram de todas as partes e faziam a mulher ao seu lado parecer pouco mais que nada.
Ela tentava excitar-se com a ideia de estar em um lugar onde tudo parecia permitido, mas a indiferença com a qual ele a tratava a entristecia de uma forma que a fazia diminuir a olhos vistos. Se alguém a medisse, provavelmente descobriria que ela perdera alguns centímetros desde que desembarcara em Lisboa. Os desejos dos dois quase nunca convergiam e ele não escondia a sua insatisfação por ter de estar com ela nos lugares que não lhe apeteciam. Se ela ao menos valesse a pena... Fosse uma dessas amsterdanesas que só existem ali e nos filmes e ele poderia ir ao inferno com ela pendurada em seu pescoço. Mas ela... até o braço dela enroscado ao seu o incomodava. Arranjou uma desculpa para não tê-la mais grudada a si, o atrito desgastava-lhe a jaqueta que lhe custara duzentos e cinquenta euros! Ela sentia-se tão mal por tudo que até se sentiu culpada por estragar-lhe a vestimenta. Tivesse dinheiro sobrando e provavelmente lhe haveria comprado uma jaqueta nova. Mas era pobre e havia trabalhado duramente para estar finalmente ali, a desperdiçar amor.
O primeiro dia em Amsterdã havia sido cansativo para o corpo e para a alma dela. Andaram e brigaram muito. Só doses de ilusão para evitar que ela sumisse. Entregaram-se a elas. Ela bebeu até sentir-se viva e pela primeira vez, comprou café com ele. Sentia-se livre, leve, não se importava de não encontrar o caminho de volta. Ele caminhava abraçado a ela e não reclamava. O mundo poderia acabar.

Ela queria transar com toda aquela sensação envolta, mas ele queria apenas dormir só. O transe não foi suficiente para segurar nela uma lágrima triste sob a qual ela adormeceu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário