Segunda-feira, 22 de dezembro de 2014, Amsterdã, Holanda.
Para ela, Amsterdã era como um grande formigueiro muito bem planejado.
Não havia espaço, mas todos chegavam a todos os lugares sem muitos problemas.
Havia gente de todos os tipos por onde quer que você nem pudesse imaginar, e os
edifícios pareciam brotar de onde não deveriam caber. Tudo muito antigo e
lindo, lindo de uma forma estranha. Mas ela estava cansada, cansada de correr
para tentar chegar e cansada da sensação de nunca estar.
Ele sentia-se em casa. Conhecia o lugar, inclusive morara ali há cerca
de um ano. Não via muita graça naquilo tudo, exceto nas garotas de rostos
perfeitos que surgiram de todas as partes e faziam a mulher ao seu lado parecer
pouco mais que nada.
Ela tentava excitar-se com a ideia de estar em um lugar onde tudo
parecia permitido, mas a indiferença com a qual ele a tratava a entristecia de
uma forma que a fazia diminuir a olhos vistos. Se alguém a medisse,
provavelmente descobriria que ela perdera alguns centímetros desde que
desembarcara em Lisboa. Os desejos dos dois quase nunca convergiam e ele não escondia
a sua insatisfação por ter de estar com ela nos lugares que não lhe apeteciam.
Se ela ao menos valesse a pena... Fosse uma dessas amsterdanesas que só existem
ali e nos filmes e ele poderia ir ao inferno com ela pendurada em seu pescoço.
Mas ela... até o braço dela enroscado ao seu o incomodava. Arranjou uma
desculpa para não tê-la mais grudada a si, o atrito desgastava-lhe a jaqueta
que lhe custara duzentos e cinquenta euros! Ela sentia-se tão mal por tudo que
até se sentiu culpada por estragar-lhe a vestimenta. Tivesse dinheiro sobrando
e provavelmente lhe haveria comprado uma jaqueta nova. Mas era pobre e havia
trabalhado duramente para estar finalmente ali, a desperdiçar amor.
O primeiro dia em Amsterdã havia sido cansativo para o corpo e para a
alma dela. Andaram e brigaram muito. Só doses de ilusão para evitar que ela
sumisse. Entregaram-se a elas. Ela bebeu até sentir-se viva e pela primeira
vez, comprou café com ele. Sentia-se livre, leve, não se importava de não encontrar
o caminho de volta. Ele caminhava abraçado a ela e não reclamava. O mundo
poderia acabar.
Ela queria transar com toda aquela sensação envolta, mas ele queria
apenas dormir só. O transe não foi suficiente para segurar nela uma lágrima
triste sob a qual ela adormeceu.
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