domingo, 15 de fevereiro de 2015

A arte do desencontro

Domingo, 21 de dezembro de 2014, Barcelona, Espanha.
O segundo dia em Barcelona amanheceu cedo demais para ele e tarde demais para ela. Mal se fez dia e ela já se aprontara em minissaia e meia-calça. Queria sair, caminhar, ver qualquer coisa que desviasse o seu pensamento das palavras que ouviu durante a madrugada. Odiava tudo o que o homem deitado ali a fazia sentir. Odiava amá-lo e odiava ser tão sensível, tão romântica, tão idiota. Ele seguia inerte, deitado, cheio de sono depois de dormir por toda a noite.
Por fim, depois de ela muito insistir, saíram a ver a Barcelona de Gaudí. Gente por todos os lados. Orientais por todos os lados +1. Espanha ou Japão? A Sagrada Família é sensacional e a impressão começa na fila, qui-lo-mé-tri-ca.  Imagine como seria se custasse menos de vinte euros.
Ela olhava tudo sem grande interesse, sem grandes impressões. Foi distanciando-se dele, que ao contrário dela, deleitava-se com cada detalhe, prestava atenção em tudo, fotografava cada letra, cada cor. Ela ia distanciando-se dele, queria livrar-se daquela dependência. Foi indo, sozinha, até que, perdeu-se dele.  Gente demais, voltaria a encontrá-lo? Ele, não muito longe dali, estava furioso. ¿Cómo que se va a perder? A raiva era bem maior que a preocupação. Parte da sua visita à catedral comprometida por ter de procurá-la. Não podia acreditar em tamanha estupidez. Por fim, encontrou-a. Ela respirou aliviada e com alguma felicidade. Ele concentrou-se em dizer a ela, de forma pouco efêmera, que perder-se, naquela situação, era bastante idiota.
O clima entre eles tornava-se, cada dia, menos amistoso. Ele parecia caminhar cada vez mais rápido, ela parecia cada vez menos disposta a acompanhá-lo. E iam assim, cada um ao seu ritmo, aumentando a distância a cada cidade.
O fim de tarde em Barcelona era lindo. Ela sentou-se a mirar o pôr-do-sol, a pensar poesias, a sonhar com tudo o que poderia ter sido. Ele, ao longe, fazia questão de não percebê-la, de não pensar nela, de não vê-la.

Uma cerveja à beira-mar, duas... As coisas ficam tão mais leves. Ele parece mais doce, ela, mais graciosa. Risos. Por que não podiam rir mais... Ela perguntava-se. Ele perguntava-se. Não se pode estar bêbado o tempo todo.

Ao deitar, a mão atrevida dele tornou a buscá-la. Envolvida pelo álcool, pelo calor dele, pelo desejo do seu próprio corpo, ela deixou-se levar uma vez mais. E novamente não houve carinho. Não houve atenção. Não houve nada. Ela feriu-se. O filme ao lado era mais importante. Mandou-o ao cinema. Dormiu mal e ferida outra vez.  Ele satisfez-se com a tevê e dormiu em paz.

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