Domingo, 21 de dezembro de 2014, Barcelona, Espanha.
O segundo dia em Barcelona amanheceu cedo demais para ele e tarde demais
para ela. Mal se fez dia e ela já se aprontara em minissaia e meia-calça. Queria
sair, caminhar, ver qualquer coisa que desviasse o seu pensamento das palavras
que ouviu durante a madrugada. Odiava tudo o que o homem deitado ali a fazia
sentir. Odiava amá-lo e odiava ser tão sensível, tão romântica, tão idiota. Ele
seguia inerte, deitado, cheio de sono depois de dormir por toda a noite.
Por fim, depois de ela muito insistir, saíram a ver a Barcelona de
Gaudí. Gente por todos os lados. Orientais por todos os lados +1. Espanha ou
Japão? A Sagrada Família é sensacional e a impressão começa na fila,
qui-lo-mé-tri-ca. Imagine como seria se
custasse menos de vinte euros.
Ela olhava tudo sem grande interesse, sem grandes impressões. Foi distanciando-se
dele, que ao contrário dela, deleitava-se com cada detalhe, prestava atenção em
tudo, fotografava cada letra, cada cor. Ela ia distanciando-se dele, queria
livrar-se daquela dependência. Foi indo, sozinha, até que, perdeu-se dele. Gente demais, voltaria a encontrá-lo? Ele, não
muito longe dali, estava furioso. ¿Cómo que se va a perder? A raiva era bem
maior que a preocupação. Parte da sua visita à catedral comprometida por ter de
procurá-la. Não podia acreditar em tamanha estupidez. Por fim, encontrou-a. Ela
respirou aliviada e com alguma felicidade. Ele concentrou-se em dizer a ela, de
forma pouco efêmera, que perder-se, naquela situação, era bastante idiota.
O clima entre eles tornava-se, cada dia, menos amistoso. Ele parecia
caminhar cada vez mais rápido, ela parecia cada vez menos disposta a acompanhá-lo.
E iam assim, cada um ao seu ritmo, aumentando a distância a cada cidade.
O fim de tarde em Barcelona era lindo. Ela sentou-se a mirar o pôr-do-sol,
a pensar poesias, a sonhar com tudo o que poderia ter sido. Ele, ao longe,
fazia questão de não percebê-la, de não pensar nela, de não vê-la.
Uma cerveja à beira-mar, duas... As coisas ficam tão mais leves. Ele parece
mais doce, ela, mais graciosa. Risos. Por que não podiam rir mais... Ela
perguntava-se. Ele perguntava-se. Não se pode estar bêbado o tempo todo.
Ao deitar, a mão atrevida dele tornou a buscá-la. Envolvida pelo álcool,
pelo calor dele, pelo desejo do seu próprio corpo, ela deixou-se levar uma vez
mais. E novamente não houve carinho. Não houve atenção. Não houve nada. Ela feriu-se.
O filme ao lado era mais importante. Mandou-o ao cinema. Dormiu mal e ferida
outra vez. Ele satisfez-se com a tevê e
dormiu em paz.
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