terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A arte do encontro XX

Inevitavelmente acabou sabendo, sim, ela estava namorando. Que rápida! Perguntava-se se era algo de quando ainda estavam juntos. Se ela se havia ido com desculpas idiotas, fazendo-o sentir-se culpado. Sentiu-se mal, a cabeça dava voltas, o estômago estava estranho, às vezes, vinham-lhe ânsias de vômito. Por fim, gritou: basta!
Iria esquecê-la, precisava esquecê-la. E guardou os livros de literatura no armário.
Não há melhor remédio que o tempo com músicas e risos enquanto ele passa. Assim foi. O tempo fez com que ele percebesse que sim, havia vida além do primeiro amor, e ela tinha gosto de alfajor de doce de leite. Aprendeu a ser só por um tempo e a sentir-se livre com a solidão.
Um ano, um ano foi o tempo para esquecer. Esquecer de estar sempre ocupado, ocupado perdendo-se em pensamentos, girando, voltando ao mesmo ponto. Haverá prazo de validade para a paixão? O dele havia expirado, definitivamente. Era quase maior de idade, tinha dezessete e só queria uma coisa, não querer.

domingo, 13 de janeiro de 2013

A arte do encontro XIX

Por essa época, como andava nossa heroína, hein, caro leitor? Não sei se já mencionei que nossa brazuca é quase sete anos mais jovem que nosso Hermano. Fazendo os cálculos, ela devia estar aí pelos nove anos, começando a preocupar-se com a cor do batom. Só tinha vivido um amor, aos seis anos, lembra-se? Ah leitor esquecido... Volte ao início da história e verás que te digo a verdade, embora a palavra não seja exatamente “vivido”...
A questão é que, enquanto o nosso herói julgava-se reerguido do primeiro grande amor naufragado, nossa princesa tentava ser a melhor aluna da terceira série, o agora quarto ano, para o povo mais antenado nas nomenclaturas. Ninguém pode negar que eram dois grandes momentos, mas voltemos ao nosso che.
Ia bem na superação do seu primeiro pé na bunda significante, depois de alguns meses, já tinha se convencido, era isso... Não contava porém, com a possibilidade de encontra-la na rua, -calma, refiro-me à boluda da adolescência de nosso querido, não à nossa menina- pois é, a encontrou. Foi deveras desconcertante. Sentiu-se como quando olhava nos olhos amendoados da loirinha de sua infância. Mas era pior, porque agora tinha total noção de sua vulnerabilidade e odiava isso.
Ela o cumprimentou com um “hola” meia boca, ele respondeu de forma quase inaudível e seguiu caminho tentando desaparecer. Depois de alguns passos, virou-se, não pôde evitar. Ali, numa esquina próxima, ela conversava alegremente com um desconhecido.
A cabeça passou a desde ai seguir o ditado chinês “uma imagem vale mais que mil palavras” e não parou de martelar e criar fantasias. Não o atendia, funcionava sozinha e pensava em muitas coisas, todas relacionadas a ela. Com quem estava? Quem era ele? Porque ela sorria tanto? Estaria já namorando outro? Pena o coração ser tão frágil e demorar tanto a cicatrizar. Não fosse assim nosso herói não estaria sofrendo tanto. Tirara as ataduras antes do tempo, era fato. Tentava mudar o pensamento. Lia, via tevê, escutava canções, andava de um lado para outro. Paliativos... Ao fim era hora de dormir e a cabeça seguia trabalhando de forma involuntária.
Não entendia por que se importava tanto. Pior, não aceitava importar-se. Lo hecho está hecho e o passado tem de ficar para trás. Mesmo sem explicação racional, não pôde dormir naquela noite.
Enquanto isso, a milhares de quilômetros, a nossa princesinha dormia o sono dos anjos esperando tirar uma boa nota na prova de matemática. 

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

A arte do encontro XVIII


O tempo passou e o relacionamento deles, enfim, era do conhecimento de todos. Um ano juntos... Passou rápido. Estar ao lado dela fazia o tempo parecer sempre mais curto para ele, cheirava à felicidade. Ainda assim, algo começava a incomodá-lo. Sentia falta de estar com os amigos, de sentir-se mais livre. Como dizer a ela, porém, que precisava de espaço? Sentia que não podia, que terminaria por magoá-la, e nem podia imaginá-la magoada. Magoava-se ele antes.
Continuou vivendo assim, iam passando-se os dias, os meses, ele ali, tentando fingir ser o mesmo de há um ano e algo. Cada vez funcionava menos. Ele não se divertia como antes, ela já não se sentia tão amada; o notava cada vez mais distante, disperso. Ela, como toda mulher, quis entender, ele, como todo homem, não queria explicar. E de tanto não se entenderem, ela lhe disse adeus em uma fria noite de inverno. Saiu ainda sem entender como chegaram àquilo e completamente magoada como ele jamais quisera. Ele foi chorar embaixo das cobertas, lamentando as palavras não ditas, a pequena mágoa não logo causada.
No dia seguinte, a mãe surpreendeu-se com a presença dele na cozinha às dez da manhã. Era tempo de aulas e ele não havia ido à escola. Ela também havia acordado tarde e julgava que ele já houvesse saído. Quis entender. Ele fingiu estar doente. Com todo o frio do inverno, não era difícil de acreditar. Tomou o café da manhã e voltou à cama para continuar a pensar e a sofrer. Pensou em ligar para ela, conversar finalmente, desculpar-se, explicar-lhe, mas desistiu ao fim. Já não era tempo para isso “lo hecho está hecho”, e foi adormecer entre lágrimas.
...
Os dias foram se passando, gélidos e pesados. A separação fez-se perceber. A cada curioso que o incomodava com indagações, respondia seco e breve: cortamos, es todo.
O tempo o ensinou a voltar a viver sem ela, os amigos foram se tornando mais próximos, ele divertia-se mais e acabou por achar que era o momento de ser mesmo assim. Vez ou outra, porém, saía-lhe alguma poesia e os livros de literatura já não lhe pareciam tão entediantes.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A arte do encontro XVII


Desde então foram muitos encontros, para um chá, um cinema, uma apresentação de algum artista em alguma praça, não importava, qualquer motivo servia para estarem juntos.
As férias de inverno iam-se acabando. Como o tempo passava rápido ao lado dela. Que delícia ficar ali sentado em algum lugar, a cabeça dela repousada em seu colo, ele a mexer-lhe os cabelos, observar seus traços, fitar-lhe outra e outra vez os olhos como para não esquecê-los jamais. Estavam namorando? Era oficial? Ainda não tinham falado sobre isso, colocado os pingos nos is. Mas os amigos, que nunca foram tantos assim, reclamavam por sua ausência e por ele agora ter sua atenção toda voltada para ela.  Ele dava-lhes desculpas, ia adiando o desencontro com ela.
Em casa, já haviam percebido que o comportamento dele mudara muito e que vez ou outra uma linda garota vinha procura-lo à porta e que aquela mesma voz às vezes perguntava por ele ao telefone.  A mãe, sempre curiosa, já havia tentado, em vão, descobrir quem era a tal garota. Ele desconversava, respondia superficialmente: una amiga. E fingia uma pressa inexistente para ausentar-se. Não gostava daquela intromissão, escapava como podia para não ter de dizer a mãe simplesmente: !No te metas! Son mis cosas. Embora um dia fosse lhe dizer...

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Das cartas que eu não mando

Te extraño mucho hoy, como hace mucho no me pasaba. Extraño escuchar tu voz y ver tus palabras tantas veces mal escritas.Extraño tu no saber conjugar el pasado y extraño tus confusiones en el presente. Ya no me acuerdo de tu olor, aunque lo adoro. Aquel olor que sale de tu cuello cuando te abrazo. No me acuerdo de la última vez que te abracé, que te senti, que me quisiste. Traigo vivas en la memoria tu risa, tu cara, tu voz. Pero tu último abrazo se perdió en algún lado. Y me hace tanta falta ese abrazo. Tu ultimo beso lo traigo guardado, en la Calle Uruguay, con mi rostro entre tus manos, me besaste; un beso dulce que me queria decir: quédate! Pero me fui... Para siempre? Lágrimas de añoranza se me quieren venir, resvalar por mi cara. Las asusto: !Volvé! que ya no es tiempo...
Ay, el olor de tu cuello... ¿Cómo era el perfume que salía de ti?
23/09/2012

sábado, 10 de novembro de 2012

Das cartas que eu não mando


Nunca estivemos na praia, mas a praia sempre me lembra você. Não sei se o barulho tranquilizador e inquietante das ondas ou o cheiro embriagador do mar; a questão é que sempre lembro. É como se pudesse te ver dançar, seu corpo se movendo... Imagino e não formo as metáforas. As ideias dão lugar a tua imagem e a tua voz. Ah tua voz... Será para sempre uma lembrança doce?
“Y un otoño vacío en el centro que solo se llena...”
Ai, ai, saudade. Tão sem tradução, tão cheia de significado. Estarás sob o frio, olhando a chuva enquanto o sol me ofusca a visão?
Teu calor se distancia de mim como o sol de tuas terras nos invernos chuvosos. És meu inverno em meio ao sol abrasador que me queima retina.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

A arte do encontro XVI


          Demorou uns cinco segundos para sair da inércia e devolver o cumprimento de forma quase engasgada: ! Hola! Nem podia acreditar que ela o notara de pronto e não tardara em falar-lhe. Depois do primeiro susto de um início de conversa que havia pensado ele ser tão difícil, continuaram a charla sem nenhum entrave. Ele resolveu perguntar-lhe uma vez mais sobre o livro, fingindo algum interesse, mas ela já notara que ele não era dado a romances literários, e enveredou por outros caminhos. Perguntou-lhe sobre a prova do dia anterior e ele mentiu  ter se saído razoavelmente bem. Ela fingiu acreditar e ficou ali, a fitar nele os traços delicados e fortes. Ainda não havia notado, como ele era bonito... De repente deu-se conta de que se aproximava do seu destino, precisava descer. Perguntou a ele aonde ia e ele respondeu que a qualquer lugar, estava à toa naquela manhã de inverno. Ela então convidou-o para assistir à sua aula e ele respondeu que sim tentando não demonstrar tanto interesse.
A aula o entediava um poco. No começo, fixou-se na voz dela, que era realmente linda. Aquela boca e aqueles olhos nem precisavam falar, no entanto, cantavam, e como era lindo vê-la cantar. Mas, depois de alguns minutos, a monotonia daquela melodia começava a deixá-lo sonolento. Como dormira pouco por esses dias! Aguentou a duras penas até o final. Finalmente!
Ela quis saber se ele havia gostado, ele que nunca aprendera a mentir muito bem, preferiu um "re lindo cantás!" . Ela entendeu, pela expressão pouco entusiasmada dele, o que se passava  e não fez mais perguntas. Caminharam até a saída e ele aproveitou para convidá-la para um lanche. Procuraram um supermercado, compraram algumas guloseimas e foram descansar em um dos parques de Palermo. O sol brilhava imponente, e apesar do frio, o dia estava lindo, o céu estava azul e havia flores brincando em seus lábios. De repente, a conversa cessou, a comida acabou e eles ficaram ali, a olhar-se. Como os olhos dela brilhavam, como a boca dele a chamava... E olhos foram se aproximando mais e mais até que os lábios se tocaram. Nossa! Que beijo! Ele se sentia flutuando. Aos quinze anos, não era seu primeiro beijo, contudo, nunca havia provado nada igual. Despertou do beijo como saído de um caleidoscópio. Deparou-se com aquele olhar, sorriu para ela e pôde, enfim, acreditar que existia. Quis parodiar em pensamento o filósofo com "beijo logo existo", preferiu porém perder-se em outros pensamentos enquanto abraçado a ela sentia o calor do sol a misturar-se ao sangue de suas veias.