quarta-feira, 4 de maio de 2011

CONSULTA MÉDICA


Ela esperava ansiosamente pela consulta. Odiava esperar e odiava os momentos que antecediam as consultas médicas. Mas o hipocondrismo a corroía e, cada vez com mais frequência, repetia-se o episódio. Ele veio, sentou-se ao lado dela. Ela não lembrava quem iniciara a conversa, o fato é que conversavam, descontraidamente. A espera tornara-se até menos desagradável.
Ela prestava atenção nos detalhes e falava com desenvoltura, inconscientemente quem sabe para desafiá-lo. Poderia ele manter o nível? Ele continuava ali, sabia utilizar a linguagem, não tropeçava nas palavras e, embora não fosse adepto de termos eruditos, não cometia erros que o senso comum teimava em cometer.
Ela não acreditava que estava fazendo análises linguísticas sobre o moço. Ele tem um sorriso lindo, uns olhinhos meio orientais, negros como ela gostava; uns braços fortes, do tipo que transmitem a segurança física que toda mulher almeja; e ela ali a pensar no léxico, nas ênclises, nas próclises...
Ele não falava outra língua, confessou sem vergonha nem pesar, mas achava lindo que ela falasse. Como é que diz mesmo? Entendi tudo. Ela ria, adorava aquela sensação de poder intelectual. Excitava-a.
Entre uns e outros assuntos, ela levantara, precisava de informações da recepção. Ao sentar-se novamente, a pergunta:
_ Faz tempo que tu malha?
Ela deixou escapar um sorriso entre orgulhoso e malicioso. Ele não perdera tempo, havia olhado para as pernas dela ao vê-la caminhar, ela sabia.
Cada vez ele a observava mais, ela percebia, fingia que não. O olhar dele ia ficando mais atrevido, fixava-se no decote da blusa dela, no qual os seios delicados saltavam numa ousadia disfarçada. Ele teimava em tentar disfarçar e não conseguir divertia-a. Ela sorria por dentro: dominava-o.
Ela pensou em perguntar-lhe algo sobre alguma forma de manter contato. Melhor não. Você é o peixe, ele que pesque. E, como em cena de filme, ele adivinhou-lhe os pensamentos. Dissera-lhe entre pretencioso e confiante:
_ Dá um toque no meu celular pra eu gravar teu número.
Ela agora dava-se conta, fora excessivamente simpática, mostrara interesse, o suficiente para a fala dele. Foda-se, ele é um gatinho. E no mais, conheciam-se. Ela lembrava dele. De onde? Especulações... Estudos, escolas, ah! É isso! Te conheço de algum lugar. Você não me é estranha. Exatamente. Eu sabia.
Antigos conhecidos. Destino? Quiçá - adoro essa palavra, desculpe leitor, não me contive - Quem sabe... Ela esperará, talvez com menos ansiedade do que esperara a consulta, mas esperará.

domingo, 1 de maio de 2011

O Retrato 2 (Érico Veríssimo)


Ao melhor escritor gaúcho de todos os tempos, minha homenagem.

"No meio da confusão, Toni deixou apressadamente a sala. Rodrigo seguiu-a, numa insensata esperança. (É agora ou nunca)Entrou no vestíbulo. Lá estava a Fraulein a mirar-se no espelho.Correu para ela, agarrou-a pelos ombros, fêla dar meia volta, puxou-a contra o peito e beijou-a com furor. Sua boca sugou como uma ventosa os lábios da rapariga, que no primeiro momento ficou como paralisada, o corpo retesado numa instintiva atitude de defesa. Em seguida, porém, ele sentiu que os dedos dela entravam em seus cabelos, numa carícia desordenada, e que aquele corpo quente, tenro e palpitante não apenas se entregava, mas procurava também o seu. Pôs-se a beijar-lhe as faces, a testa, os olhos, numa pressa gulosa. A boca de Toni então tomou a iniciativa, colou-se avidamente a sua, o que o deixou desatinado. Suas mãos começaram a percorrer o corpo da Fraulein, numa ânsia cega e dilaceradora. Sentindo, porém, que ela desfalecia - a cabeça atirada para trás, os olhos semicerrados, um débil gemido a escapar-lhe pela boca entreaberta - teve de enlaçar-lhe a cintura para que ela não caísse. Passou-lhe pela mente uma ideia alucinada; erguê-la nos braços, subir a escada e levá-la para um dos quartos, lá em cima... Mas o corpo de Toni tornou a enrijar-se e, desvencilhando-se dele, a rapariga apanhou o violoncelo e se foi quase a correr, rumo da sala de visitas."
(Érico Veríssimo, O Retrato 2- O Tempo e o Vento, pag. 545)

sábado, 30 de abril de 2011

Te siento


Qué hacer cuando los sentimientos tienen dos hablas
cuando los puedes traducir
aunque no los entienda.
La vida nos sopla al oído las imposibilidades posibles
pero, al fin, qué es posible?
Una piel que tiene color
pero no olor
Una voz que me suena al oído
está re re lejos...
Acércate!
Cuéntame secretos...
Y puedes sentir
Una mirada que jamás viste
Unas manos que nunca te han tocado
Un respiro que nunca se acercó.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Sábado à noite, tudo pode mudar?


"Amanhã eu não vou nem lembrar", uma lágrima veio brincar em seu olhar naquele momento, ameaçando-lhe rolar pela face. Mas ela já aprendera a suprimir o choro e como em muitas outras vezes, engoliu em seco e quedou-se ali, pensando, a única expressão possível foi um riso irônico que lhe saía, às vezes, assim, meio nervoso, meio maquiado.
Quantas bocas havia beijado ele até então? Tantas que ela já perdera a conta. Porém, agora, ele estava ali, com uma voz doce, com seu charme meio natural, meio aprendido e, naquele momento, era só a ela que ele queria, ela em sua face mais instintiva.
Ele a tocava vez em quando, no princípio com um ar desinteressado, como um acaso, depois de forma explícita. Cada vez que o toque quente dele tocava-lhe a pele, ela estremecia amedrontada e excitada. Resistia-lhe de forma enérgica. A idéia de ser mais uma em seus braços repugnava-a. Entre medo, asco e desejo que transpiravam dela, ele a tomou em seus braços num beijo tórrido, nervoso, como quem doma uma fera que teima em não ser domesticada.
Ela não queria gostar, aquilo lhe era inconcebível, mas ele vinha, cada vez mais atrevido, mais confiante, como se lhe conhecesse o pensamento, como se lhe houvesse mapeado o corpo. Ela lutava entre um querer e não querer que teimava em ser apenas querer, um querer que lhe feria os princípios conquistados com um sofrer silencioso.
Há quanto tempo ela não era tocada... Ele nem poderia imaginar. A realidade de experiências amargas a fizera paradoxalmente ir de encontro ao seu discurso feminino, conquistado a custa de sutiãs queimados em praça pública. Sim, ela já percebera que os direitos por elas conquistados nessa esfera, mais funcionavam contra ela que a seu favor, e que, por mais prazer "free way" que ela pudesse sentir, na hora de dormir, a cama dela estava sempre vazia, e ela adormecia entre seus livros e suas próprias roupas. Ele conhecia o paradoxo e utilizava o discurso aparentemente a favor das mulheres para confundi-la, desarmá-la. Como ela tão moderna poderia estar aprisionada aos velhos conceitos sociais? Ela não estava, estava presa às próprias experiências, dúvidas e próprios anseios.Como explicar isso a ele? Na situação já tão avançada em intimidade, não cabia intimidade desse tipo. Melhor fazer-se de antiquada, mas isso ela também não conseguia.
Ela foi aos poucos entregando-se, a sensação da língua molhada e macia a percorrer-lhe o corpo apagava-lhe os pensamentos, desfazia-lhe as sinapses e o corpo simplesmente respondia explosivo, como a sua essência não podia negar. Entre intervalos voltava-lhe a sanidade, perturbadora, e ela voltava ao início. Ele a desejava com um desejo imponente, urgente; já desenhara todo o corpo dela com as mãos, com a língua, e o cheiro e o gosto dela faziam-lhe o desejo ainda mais insaciável. Precisava entrar nela, marcá-la. Mas isso ela não podia, as lembranças de outrora e a imagem dele a provar outros beijos ecovam em sua mente numa renúncia inflexível.
Ela o magoou, ele a magoou de volta, ela fugiu sentindo-se rejeitada, ele adormeceu com um sentimento que ela não podia decifrar. Pela manhã, não houve beijo de bom dia e ela teve a certeza de que fizera o certo; certeza que se confundiu depois quando mesmo assim se sentiu como antes. Ele despediu-se numa despedida fria e ela foi adormecer mais tarde entre seus livros e suas próprias roupas.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011


que palavras devem ser ditas numa noite de verão?
que palavras quererás escutar numa noite de inverno?
que cara deverá ter a voz que as pronuncia?
que gosto precisa ter o beijo que dura mais de uma estação?
ansiosa por palavras sopradas com doçura, espero inerte que tenham cheiro de primavera, que exalem o calor do verão, que sejam aconchegantes como o inverno e que precisem ser recolhidas com carinho como as folhas que caem no outono.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Adolescer

E eis que ele tem um rosto lindo, um olhar de quem sonha, gestos de quem vive com sangue correndo nas veias, a pleno vapor. Olha-me como se eu fosse a oitava maravilha, inalcançável, embora ele tente me alcançar sempre. E eu penso: quisera eu ser como tu e morrer de amores numa paixão adolescente.
Depois que se cresce fica tudo tão mais burocrático. Já dizia o mestre Vinicius em sua imensa sensibilidade "Quem pagará o enterro e as flores se eu morrer de amores?" em um amor adolescente só morre-se e ponto. O amor é tão mais doce e ridículo nessa fase...
Que eu possa ser responsável por alguns sonhos, mesmo os que pareçam impróprios e que um dia eu possa surgir em você como uma antiga lembrança capaz de despertar um velho sorriso infantil.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A um final de domingo...

Acordei às onze da matina, e agora, quase treze horas depois, não tenho sono para voltar à cama. Assisto à tv que, por incrível que pareça, transmite algo ao qual vale a pena dar um pouco de atenção, quiçá porque talvez já passe da meia-noite e já não seja domingo.
Estou aqui fazendo o que sempre faço: perdendo o foco. Exercitando a minha incrível capacidade de desconcentrar-me. Pra bem falar a verdade, estou aqui fugindo da internet, que creio às vezes ser uma das reforçadoras do talento que tenho de perder-me em emaranhados de pensamentos nos quais, depois de certo tempo, não consigo encontrar o caminho de volta. Onde eu estava mesmo?
A moça na tv faz coisas demais: atriz, fazendeira, idealista, participante de ONG, etc., etc., etc. Sempre sinto-me inútil quando vejo gente assim tão competente. Fico pensando: caramba, como faço pouca coisa... Acho que isso me deixa meio deprimida. Melhor mudar de assunto.
Tento entender por que me perco tanto. Parece que transfiro à vida a possibilidade de abrir muitas abas ao mesmo tempo, enquanto em uma delas tento me convencer em 140 caracteres. Minha prolixidade faz cair tudo por terra, e fico caminhando entre uma aba e outra, tentando, em vão, desenvolver um design incrível que comporte ícones que tornem o acesso divertido e links que tenham conteúdos interessantes infinitamente.
Agora a mulher na tv fala de um novo roteiro que produz junto com uma jovem que, pelo sorriso que a atriz deixou escapar, também deve ser responsável por revisar o texto ao final de cada capítulo.
Meu estômago dói e acaba mais um bloco do programa. Melhor tentar dormir, afinal, amanhã é segunda-feira, dia de estar OBRIGATORIAMENTE conectada desde cedo. É uma pena, mas são poucos os dias que começam às 11 da manhã. Saindo... Status: off line.