domingo, 1 de maio de 2011

O Retrato 2 (Érico Veríssimo)


Ao melhor escritor gaúcho de todos os tempos, minha homenagem.

"No meio da confusão, Toni deixou apressadamente a sala. Rodrigo seguiu-a, numa insensata esperança. (É agora ou nunca)Entrou no vestíbulo. Lá estava a Fraulein a mirar-se no espelho.Correu para ela, agarrou-a pelos ombros, fêla dar meia volta, puxou-a contra o peito e beijou-a com furor. Sua boca sugou como uma ventosa os lábios da rapariga, que no primeiro momento ficou como paralisada, o corpo retesado numa instintiva atitude de defesa. Em seguida, porém, ele sentiu que os dedos dela entravam em seus cabelos, numa carícia desordenada, e que aquele corpo quente, tenro e palpitante não apenas se entregava, mas procurava também o seu. Pôs-se a beijar-lhe as faces, a testa, os olhos, numa pressa gulosa. A boca de Toni então tomou a iniciativa, colou-se avidamente a sua, o que o deixou desatinado. Suas mãos começaram a percorrer o corpo da Fraulein, numa ânsia cega e dilaceradora. Sentindo, porém, que ela desfalecia - a cabeça atirada para trás, os olhos semicerrados, um débil gemido a escapar-lhe pela boca entreaberta - teve de enlaçar-lhe a cintura para que ela não caísse. Passou-lhe pela mente uma ideia alucinada; erguê-la nos braços, subir a escada e levá-la para um dos quartos, lá em cima... Mas o corpo de Toni tornou a enrijar-se e, desvencilhando-se dele, a rapariga apanhou o violoncelo e se foi quase a correr, rumo da sala de visitas."
(Érico Veríssimo, O Retrato 2- O Tempo e o Vento, pag. 545)

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