sábado, 20 de março de 2010

MEMORIAL

Jardinando

Cinco anos. Primeiro dia de escola.
Roupa nova, sapato, penteado.
Mãe, mão, recomendações.
Vozes ao redor, choros. O que é isso?
Uma tia! Que delicada!
Pele branca, cabelos negros, voz doce
Traz em si um repertório de letras e canções
Que pintam as vogais
Desenham possibilidades.
Sobe, desce, pinga
Seu nome eu já li. Eu li.

Alinhando tijolos

Seriando.
As canções diminuíram
Mas aumentaram as letras.
Férias!
Casa da avó.
Passeios. Ali está: BIBLIOTECA
Entre prateleiras encontro:
“Pé de anjo”
Fundo azul atrás de um pé alado.
Que dizia esse livro?...
Não sei. Perdi-me a caminho dos contos de Andersen e de Grimm.

Cobrindo o telhado

Já tenho treze. Suficiente para olhos de ressaca?
“Você parece a Capitu”
A Geografia apresenta-me Dom Casmurro.
Pareço Capitu deveras?
Impossível responder para mim.
Apaixono-me por Machado
Sou a mão com frio, ele a luva.

Desenhando a fachada

Primeiro impacto.
Afinal, quantas são as vogais?
Tia Cláudia coloriu demais as letras
Algo ficou atrás dos pincéis.
Professor Bosco ensina-me entre lançamentos de dúvidas
É preciso reconstruir.
Biblioteca da Universidade
Ignácio de Loyola: O beijo não vem da boca.
Encontrar o caminho
Refrescar o hálito
Soprar aos ouvidos espectadores
Letras coloridas
Que não se percam sob pincéis
E que tenham pés de anjo.

(Aline Alves)

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