ELE (continuação)
Apaixonou-se pela primeira vez aos dez anos, mas não confessava nem para si aquela paixão. Não entendia muito bem o que era paixão, amor, não entendia. Buscava em seus pensamentos a explicação para aquela sensação de vibração no estômago cada vez que se aproximava o momento de vê-la e para aquele desconforto na cabeça e no coração cada vez que seus olhos a tocavam. Estaria doente? Precisaria de um médico?
Passou a isolar-se, martelando a cabeça com tentativas vãs de entender e acabar com aquele turbilhão de sensações desconfortáveis. Começou a observar tudo ao redor, e pouco a pouco foi juntando pistas para explicar para si de que se tratava sua tal enfermidade. Por fim, acabou por entender tudo em um filme. O personagem apresentava os mesmos sintomas que ao fim pioraram quando ele se envolveu em um beijo profundo que terminou em confissões adocicadas. Estaria ele apaixonado?! Não, não podia. Garoto demais. Tantas outras coisas por fazer. Tantas guerras imaginárias ainda por lutar. Precisava ajudar a resgatar as Malvinas. Estava... agora sabia. Sabia mas não confessaria. Que tipo de garoto se apaixona aos dez anos de idade? Seus amigos ririam de sua cara se soubessem. Que idiota ele era...
Descoberta a doença, tratou de combatê-la, e como não havia fórmula pronta, ele mesmo preparou a receita e iniciou o tratamento. A estratégia era combater os sintomas, se pudesse fazê-los desaparecer, se sentiria curado. Solução: não vê-la mais. Difícil... estudavam na mesma escola, embora em salas diferentes. Precisava fugir dos encontros nos horários comuns: entrada, saída, recreio.
Chegou propositalmente atrasado no primeiro dia após o plano, e para seu pesar, ela também se atrasara. Foi aquele turbilhão de sensações outra vez. Deus, como não olhar para ela? Ela sorria com o rosto inteiro, os olhos brilhavam o cabelo caia-lhe delicadamente sobre a face. Era toda ela um encanto, parecia uma princesa das historias que ouvia no jardim de infância. Perdia-se mirando-a, imaginando-a junto de si em brincadeiras ainda muito inocentes.
Nesse dia não foi para o recreio. Ficou na sala brincando com seus bonecos, inventando uma guerra. Os dias seguintes seguiram-se iguais: ele não saia no recreio, chegava antes de todos à sala e era sempre o último a sair.
A garotinha loira de olhos cor de mel passou a sentir falta de um bonito garoto que sempre a olhava de um jeito que lhe parecia meio engraçado. Não sabia por que, mas gostava quando ele estava por perto. Por onde andaria ele...
Alguns meses se passaram e chegaram as férias de verão. Ele já não pensava tanto nela. Algumas vezes lhe vinha alguma lembrança; não podia esquecer o jeito como ela sorria. Mas sentia-se muito mais tranqüilo agora. Sua enfermidade estava controlada.
No dia de retorno à escola, voltou a sentir-se estranho. As horas que antecederam a sua ida ao colégio foram-lhe insuportáveis. Olhava o relógio digital sobre o criado mudo, roia as unhas, balançava as pernas, numa espera torturante até a hora de partir. Ao fim, resolveu ir na hora certa, sabia que a encontraria logo na entrada e que todos os sintomas voltariam, que se sentiria outra vez perdido. Não importava, precisava reencontrá-la, rever os olhos amendoados, o sorriso doce. . .
Chegou à hora pontual. Olhou ao redor, não a viu. Buscou-a com o olhar por todos os lados, tocou o sinal e ele não a encontrou. Atrasara-se? Faltara? Não sabia.
Não pôde concentrar-se na aula. Pensava nela: haveria chegado? Na hora do intervalo voltou a procurá-la, andou por toda parte, inútil. Ela não estava. Pôs-se a se perguntar que haveria acontecido. Em todo o primeiro semestre de aulas ela não faltara uma só vez, por que faltaria agora? Quedou-se assim com os pensamentos a dar-lhe voltas, atordoá-lo, e assim permaneceu por longos dias. Todos os dias a mesma busca, o mesmo sentimento medonho a corroer-lhe o peito e a mesma sensação angustiante de nada poder fazer. Assim foram se passando os dias, até que tornaram-se menos longos e ele voltou a ver alguma graça nas suas brincadeiras infantis com gigantescas batalhas imaginárias. Só pela manhã vinha-lhe, às vezes, alguma lembrança quando a mãe lhe trazia amêndoas no café, mas logo se ia desvanecendo e ele voltava a ser o menino comum que nunca deveria ter deixado de ser.
A milhares de quilômetros dali, ao sul do país, uma menina doce, de longos cabelos loiros e olhos amendoados sorria para o garoto de cabelos compridos que a olhava na entrada da escola e pensava: por onde andaria o garoto bonito da outra escola, que a olhava de forma tão terna. Que saudade sentia daquele olhar...
"Lenguajes" é uma proposta de interação através de poemas, canções e discussões, sejam estes em português, em espanhol ou da forma que convier à velha(não tão velha assim)cachola. Com bom humor ou não, e vez em quando com uma lágrima doce...
quarta-feira, 11 de abril de 2012
domingo, 5 de fevereiro de 2012
A arte do encontro X
ELE
Fisicamente, sempre se parecera muito com a mãe. A natureza lhe brindou com a beleza que só um mestiço possui. Uma mistura de sangues latinos entre América e Europa que resultou em algo quase hipnotizante para as mulheres. O nariz perfeito, a altura acima da média, o corpo esbelto, os músculos bem trabalhados, a boca grande e a voz forte e grave davam a ele um ar de virilidade e o faziam exalar testosterona. Um imã aos olhos femininos, uma armadilha aos corações fragilizados. E ele sabia, sabia a sensação que causava no sexo oposto e jogava com o seu poder. Satisfazia-o saber que era alvo de olhares, de desejos... Era meio narcisista, embora nunca o houvesse confessado, nem mesmo para si. Perdia-se a mirar-se no espelho ao sair do banho, ao fazer a barba. Nunca deixava pelos no rosto. A pele sempre lisa, bem cuidada e a boca a saltar-lhe no rosto, quase uma ofensa de tão sexy. Mas faltava-lhe algo, sempre faltava-lhe algo...
Fisicamente, sempre se parecera muito com a mãe. A natureza lhe brindou com a beleza que só um mestiço possui. Uma mistura de sangues latinos entre América e Europa que resultou em algo quase hipnotizante para as mulheres. O nariz perfeito, a altura acima da média, o corpo esbelto, os músculos bem trabalhados, a boca grande e a voz forte e grave davam a ele um ar de virilidade e o faziam exalar testosterona. Um imã aos olhos femininos, uma armadilha aos corações fragilizados. E ele sabia, sabia a sensação que causava no sexo oposto e jogava com o seu poder. Satisfazia-o saber que era alvo de olhares, de desejos... Era meio narcisista, embora nunca o houvesse confessado, nem mesmo para si. Perdia-se a mirar-se no espelho ao sair do banho, ao fazer a barba. Nunca deixava pelos no rosto. A pele sempre lisa, bem cuidada e a boca a saltar-lhe no rosto, quase uma ofensa de tão sexy. Mas faltava-lhe algo, sempre faltava-lhe algo...
A arte do encontro IX
Ela (continuação)
Com o tempo vieram novas literaturas, os contos de fada adormeceram em algum lugar e ela já não se podia reconhecer. Mirava-se no espelho buscando respostas às suas perguntas que eram tantas que já nem podia enumerá-las, e, vez ou outra, voltava ao mesmo ponto: e o amor, por onde andará o tal do amor...
Com o tempo vieram novas literaturas, os contos de fada adormeceram em algum lugar e ela já não se podia reconhecer. Mirava-se no espelho buscando respostas às suas perguntas que eram tantas que já nem podia enumerá-las, e, vez ou outra, voltava ao mesmo ponto: e o amor, por onde andará o tal do amor...
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
A arte do encontro VIII
ELA (continuação)
E agora, estava namorando? Estava, pelo menos ela achava que estava. Resolveu contar a mãe, que não recebeu muito bem a notícia. Logo, aquilo lhe soou como algo ruim e preferiu continuar em segredo com seu sentimento, nutrindo-o dentro de si.
Todos os dias arrumava-se, perfumava-se na esperança de que ele a beijasse outra vez. E ele a beijou, beijou tantas vezes que realmente começou a ser mágico aquele momento. Até que...
Era uma quinta-feira, dia de prova, e todos saiam mais cedo da escola. Ela saía quando uma colega de classe a chamou. Alguns passos depois, o seu castelo desmoronou. Seu príncipe sem cara de príncipe estava ali, beijando a rainha má. Perdeu-se... O que dizer? O que pedir? O que reivindicar? Não sabia... Não sabia pelo simples motivo de não reconhecer-se em nenhuma categoria. Só sabia que tinha sonhos, mas disso o outro não pode ser responsável.
Saiu, pensou, pensou, chorou, chorou, chorou... esqueceu.
E agora, estava namorando? Estava, pelo menos ela achava que estava. Resolveu contar a mãe, que não recebeu muito bem a notícia. Logo, aquilo lhe soou como algo ruim e preferiu continuar em segredo com seu sentimento, nutrindo-o dentro de si.
Todos os dias arrumava-se, perfumava-se na esperança de que ele a beijasse outra vez. E ele a beijou, beijou tantas vezes que realmente começou a ser mágico aquele momento. Até que...
Era uma quinta-feira, dia de prova, e todos saiam mais cedo da escola. Ela saía quando uma colega de classe a chamou. Alguns passos depois, o seu castelo desmoronou. Seu príncipe sem cara de príncipe estava ali, beijando a rainha má. Perdeu-se... O que dizer? O que pedir? O que reivindicar? Não sabia... Não sabia pelo simples motivo de não reconhecer-se em nenhuma categoria. Só sabia que tinha sonhos, mas disso o outro não pode ser responsável.
Saiu, pensou, pensou, chorou, chorou, chorou... esqueceu.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
A arte do encontro VII
ELA (continuação)
Um ano a mais. Novo ano letivo, mesma escola, muitas amigas e... novatos. Ele... Alto, moreno, enfim, diferente dos contos de fada. Tão senso comum, e para ela parecia lindo. Como lhe acelerava o coração cada vez que o encontrava, na escada, nos corredores.
Um dia, puseram-se a conversar, ali, em frente à escola e com gente ao redor. Vestida com o uniforme de sainha e com a mochila cor de rosa nas costas. Tão menina, cheia de sonhos nos olhos brilhantes e cheia de tropeços na voz que lhe saía acelerada.
A boca clamava por um beijo, o beijo, o primeiro beijo. Tinha apenas doze anos, mas de acordo com entrevistas preliminares, era a única, dentre as amigas, que nunca havia sido beijada. E de repente, zás! Ela o beijou. Lançou-se ao pescoço do rapaz num relance e teve seu desastroso primeiro beijo. Totalmente diferente do tão sonhado primeiro beijo da imaginação dela. Trazia na boca uma bala e não sabia o que fazer com ela naquele momento, a inexperiência a fez engolir o doce e engasgar-se, una tragédia não maior por não haver-se sufocado. Mas agora todos sabiam: era seu primeiro beijo.
Voltou para casa com sentimentos desencontrados: vergonha, orgulho, desejo, não sabia. Ela tinha beijado, beijado... Foi mais pesadelo que sonho, mas ainda assim, ela pensava sentir-se feliz.
Um ano a mais. Novo ano letivo, mesma escola, muitas amigas e... novatos. Ele... Alto, moreno, enfim, diferente dos contos de fada. Tão senso comum, e para ela parecia lindo. Como lhe acelerava o coração cada vez que o encontrava, na escada, nos corredores.
Um dia, puseram-se a conversar, ali, em frente à escola e com gente ao redor. Vestida com o uniforme de sainha e com a mochila cor de rosa nas costas. Tão menina, cheia de sonhos nos olhos brilhantes e cheia de tropeços na voz que lhe saía acelerada.
A boca clamava por um beijo, o beijo, o primeiro beijo. Tinha apenas doze anos, mas de acordo com entrevistas preliminares, era a única, dentre as amigas, que nunca havia sido beijada. E de repente, zás! Ela o beijou. Lançou-se ao pescoço do rapaz num relance e teve seu desastroso primeiro beijo. Totalmente diferente do tão sonhado primeiro beijo da imaginação dela. Trazia na boca uma bala e não sabia o que fazer com ela naquele momento, a inexperiência a fez engolir o doce e engasgar-se, una tragédia não maior por não haver-se sufocado. Mas agora todos sabiam: era seu primeiro beijo.
Voltou para casa com sentimentos desencontrados: vergonha, orgulho, desejo, não sabia. Ela tinha beijado, beijado... Foi mais pesadelo que sonho, mas ainda assim, ela pensava sentir-se feliz.
Saudade
Ai que saudade é bicho besta
Não tem orgulho
E vez em quando, lá vem
Pedindo arrêgo
Chega como quem nada quer
Vai por ali, no ombrinho
Desce pro peito
Entra na corrente sanguínea
Instala-se bem na nossa mente
Revira as memórias
já tão quietinhas
Faz uma bagunça danada.
Ai que saudade mexe a gente
Desonera, e a gente vai ficando
Assim
molinho
03/01/2012
Não tem orgulho
E vez em quando, lá vem
Pedindo arrêgo
Chega como quem nada quer
Vai por ali, no ombrinho
Desce pro peito
Entra na corrente sanguínea
Instala-se bem na nossa mente
Revira as memórias
já tão quietinhas
Faz uma bagunça danada.
Ai que saudade mexe a gente
Desonera, e a gente vai ficando
Assim
molinho
03/01/2012
A arte do encontro VI
Ela (continuação)
No ano seguinte, mudou de escola, e ...ah! Outro amor! Nossa, o pior aluno!
Toda sexta-feira ela se produzia, ficava linda pra ele e ele nem a notava. Tinha ela agora onze anos e os primeiros sinais de mulher surgiam nela timidamente. Os seios despontavam e aos poucos o quadril ia ganhando contornos. Mas outras eram já tão moças, ela ainda tão menina. Ele simplesmente não a via. E continuou não se dando conta dela até que a reencontrou alguns anos depois. Que diferente ela estava. Sempre tivera aquele sorriso? Não podia dizer, mas sabia que aquele corpo de mulher ela não tinha.
Nessa ocasião ele não pareceu a ela tão atrativo. O frescor adolescente já não brincava no rosto dele, e, apesar de haver emagrecido, isso não o tornara mais bonito, ao contrário, produzia nele um ar menos saudável e o deixava aparentemente mais velho. Além disso, tornara-se um fracassado. Largara os estudos e estava num bar de quinta a embriagar-se.
Ela orgulhou-se de ser quem era e gostou de tê-lo visto. Melhor, gostou que ele a houvesse visto.
No ano seguinte, mudou de escola, e ...ah! Outro amor! Nossa, o pior aluno!
Toda sexta-feira ela se produzia, ficava linda pra ele e ele nem a notava. Tinha ela agora onze anos e os primeiros sinais de mulher surgiam nela timidamente. Os seios despontavam e aos poucos o quadril ia ganhando contornos. Mas outras eram já tão moças, ela ainda tão menina. Ele simplesmente não a via. E continuou não se dando conta dela até que a reencontrou alguns anos depois. Que diferente ela estava. Sempre tivera aquele sorriso? Não podia dizer, mas sabia que aquele corpo de mulher ela não tinha.
Nessa ocasião ele não pareceu a ela tão atrativo. O frescor adolescente já não brincava no rosto dele, e, apesar de haver emagrecido, isso não o tornara mais bonito, ao contrário, produzia nele um ar menos saudável e o deixava aparentemente mais velho. Além disso, tornara-se um fracassado. Largara os estudos e estava num bar de quinta a embriagar-se.
Ela orgulhou-se de ser quem era e gostou de tê-lo visto. Melhor, gostou que ele a houvesse visto.
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