domingo, 5 de fevereiro de 2012

A arte do encontro X

ELE
Fisicamente, sempre se parecera muito com a mãe. A natureza lhe brindou com a beleza que só um mestiço possui. Uma mistura de sangues latinos entre América e Europa que resultou em algo quase hipnotizante para as mulheres. O nariz perfeito, a altura acima da média, o corpo esbelto, os músculos bem trabalhados, a boca grande e a voz forte e grave davam a ele um ar de virilidade e o faziam exalar testosterona. Um imã aos olhos femininos, uma armadilha aos corações fragilizados. E ele sabia, sabia a sensação que causava no sexo oposto e jogava com o seu poder. Satisfazia-o saber que era alvo de olhares, de desejos... Era meio narcisista, embora nunca o houvesse confessado, nem mesmo para si. Perdia-se a mirar-se no espelho ao sair do banho, ao fazer a barba. Nunca deixava pelos no rosto. A pele sempre lisa, bem cuidada e a boca a saltar-lhe no rosto, quase uma ofensa de tão sexy. Mas faltava-lhe algo, sempre faltava-lhe algo...

A arte do encontro IX

Ela (continuação)
Com o tempo vieram novas literaturas, os contos de fada adormeceram em algum lugar e ela já não se podia reconhecer. Mirava-se no espelho buscando respostas às suas perguntas que eram tantas que já nem podia enumerá-las, e, vez ou outra, voltava ao mesmo ponto: e o amor, por onde andará o tal do amor...

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A arte do encontro VIII

ELA (continuação)
E agora, estava namorando? Estava, pelo menos ela achava que estava. Resolveu contar a mãe, que não recebeu muito bem a notícia. Logo, aquilo lhe soou como algo ruim e preferiu continuar em segredo com seu sentimento, nutrindo-o dentro de si.
Todos os dias arrumava-se, perfumava-se na esperança de que ele a beijasse outra vez. E ele a beijou, beijou tantas vezes que realmente começou a ser mágico aquele momento. Até que...
Era uma quinta-feira, dia de prova, e todos saiam mais cedo da escola. Ela saía quando uma colega de classe a chamou. Alguns passos depois, o seu castelo desmoronou. Seu príncipe sem cara de príncipe estava ali, beijando a rainha má. Perdeu-se... O que dizer? O que pedir? O que reivindicar? Não sabia... Não sabia pelo simples motivo de não reconhecer-se em nenhuma categoria. Só sabia que tinha sonhos, mas disso o outro não pode ser responsável.
Saiu, pensou, pensou, chorou, chorou, chorou... esqueceu.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A arte do encontro VII

ELA (continuação)
Um ano a mais. Novo ano letivo, mesma escola, muitas amigas e... novatos. Ele... Alto, moreno, enfim, diferente dos contos de fada. Tão senso comum, e para ela parecia lindo. Como lhe acelerava o coração cada vez que o encontrava, na escada, nos corredores.
Um dia, puseram-se a conversar, ali, em frente à escola e com gente ao redor. Vestida com o uniforme de sainha e com a mochila cor de rosa nas costas. Tão menina, cheia de sonhos nos olhos brilhantes e cheia de tropeços na voz que lhe saía acelerada.
A boca clamava por um beijo, o beijo, o primeiro beijo. Tinha apenas doze anos, mas de acordo com entrevistas preliminares, era a única, dentre as amigas, que nunca havia sido beijada. E de repente, zás! Ela o beijou. Lançou-se ao pescoço do rapaz num relance e teve seu desastroso primeiro beijo. Totalmente diferente do tão sonhado primeiro beijo da imaginação dela. Trazia na boca uma bala e não sabia o que fazer com ela naquele momento, a inexperiência a fez engolir o doce e engasgar-se, una tragédia não maior por não haver-se sufocado. Mas agora todos sabiam: era seu primeiro beijo.
Voltou para casa com sentimentos desencontrados: vergonha, orgulho, desejo, não sabia. Ela tinha beijado, beijado... Foi mais pesadelo que sonho, mas ainda assim, ela pensava sentir-se feliz.

Saudade

Ai que saudade é bicho besta
Não tem orgulho
E vez em quando, lá vem
Pedindo arrêgo
Chega como quem nada quer
Vai por ali, no ombrinho
Desce pro peito
Entra na corrente sanguínea
Instala-se bem na nossa mente
Revira as memórias
já tão quietinhas
Faz uma bagunça danada.
Ai que saudade mexe a gente
Desonera, e a gente vai ficando
Assim
molinho
03/01/2012

A arte do encontro VI

Ela (continuação)
No ano seguinte, mudou de escola, e ...ah! Outro amor! Nossa, o pior aluno!
Toda sexta-feira ela se produzia, ficava linda pra ele e ele nem a notava. Tinha ela agora onze anos e os primeiros sinais de mulher surgiam nela timidamente. Os seios despontavam e aos poucos o quadril ia ganhando contornos. Mas outras eram já tão moças, ela ainda tão menina. Ele simplesmente não a via. E continuou não se dando conta dela até que a reencontrou alguns anos depois. Que diferente ela estava. Sempre tivera aquele sorriso? Não podia dizer, mas sabia que aquele corpo de mulher ela não tinha.
Nessa ocasião ele não pareceu a ela tão atrativo. O frescor adolescente já não brincava no rosto dele, e, apesar de haver emagrecido, isso não o tornara mais bonito, ao contrário, produzia nele um ar menos saudável e o deixava aparentemente mais velho. Além disso, tornara-se um fracassado. Largara os estudos e estava num bar de quinta a embriagar-se.
Ela orgulhou-se de ser quem era e gostou de tê-lo visto. Melhor, gostou que ele a houvesse visto.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A arte do encontro V

ELA (continuação)
Apaixonara-se pela primeira vez aos seis anos, enquanto tentava soletrar. Parecia-lhe tão fácil soletrar amor. Descobriria um dia que a facilidade da palavra restringia-se à ortografia e à fonologia.
Ele era loiro, tinha olhos verdes, cabelo liso. Exatamente como nas estorinhas... E tinha quase o dobro da idade dela. Provavelmente nunca a vira e eles nunca chegaram a trocar uma só palavra. E, depois de algum tempo, ela o esqueceu. Lembrava-se de algumas características, mas não podia lembrar, nem mesmo com precisão superficial, do rosto dele.
Da segunda vez que ela se apaixonou, tinha dez anos. Cursava agora a quarta série e já vinham-lhe à cabeça as primeiras grandes dúvidas, para as quais, mesmo depois de muito tempo, não encontraria resposta. Um amor em questão era novamente um loiro. Os biotipos dos contos de fada pareciam seguir impregnados em sua mente. Ele tinha uns traços delicados, requintados; parecia meio europeu. Tornaram-se amigos. Conversavam por horas, inclusive durante as aulas, coisa que ela até então nunca fizera. Sempre fora comportadíssima, um exemplo para toda turma. Incutiram-lhe desde cedo uma certa repressão que ela nunca pensara em romper. Obedecia e ponto. Mas agora, simplesmente acontecia. Era tão melhor responder a ele que à professora... Mas ao fim a consciência falou mais alto e ela resolveu separar-se dele para não prejudicar-se.
Um dia ele lhe fez uma declaração de amor, uma cartinha linda. A qual inesperadamente ela disse: não. Era jovem demais, não podia entregar-se ao amor agora.