segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Canção de violão


16/08/2015
21:34
Tornei-me seu violão
Em seu corpo aparentemente incompleto
Encaixei-me entre seus braços
Em seu colo
Já não faltava-lhe nada
Era eu seu instrumento
A madeira de meu corpo aconchegou-se
Em sua pele rescendia à madeira de lei
Seus dedos deslizaram em minhas cordas
Produziram notas de um bolero
E el reloj já não marcava as horas
Embora eu enlouquecesse ao refrão do bolero
Fiz-me gaita, sax, violoncelo
Era de sua boca, suas mãos...
Sob medida para a sua canção
Minhas notas foram tocadas uma a uma
Viraram samba, rock, pop, samba-canção, bossa-nova, s  e  r  e  n  a  t  a

Canção para dormir


24/08/2015
09:47
Quando teu violão me toca
Quero ser sonata
Partitura, serenata
Quedar-me ali
Sentir a brisa leve que escapa
De cada nota

Há noites de samba
Repique,atabaque
Há noites para ser só de violão
Deixar-se estar
Fechar os olhos
Abrir a alma

Nessas noites adormeço
Sem teus braços
Em teu som

terça-feira, 21 de julho de 2015

A un tal Jack Sparrow

Un Jack Sparrow que no es el capitán de nadie, sino de si mismo. No pertenece, es simplemente, y en serlo, pertenece intensamente, por un rato nomás. Te comanda con la sonrisa, con su toque, con sus labios. Es de nadie y es tuyo con todo su cuerpo. Te navega como si fueras su ruta, con aguas cálidas, de tranquilas a revueltas. Se hace inolvidable, pero deja claro que no podrá ser más que un recuerdo lejano. Y lo aceptas tú porque sabes que tener a Jack Sparrow es dejarse ser un navio que flota en aventura y sensación, donde no faltan risas, sentidos... Y te dejas abandonar con un beso en la frente, vuelves la mirada hacia atrás mientras Jack Sparrow vuelve con su raro caminar a su escondrijo de sueños, donde hay canciones, mates y una gata que lo ama.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Um brinde

Um brinde a todos aqueles amores que poderiam ser, não àqueles que geraram sofrimentos tantos que você cansou de tentar e desistiu de fazer dar certo, mas àqueles que simplesmente não puderam ficar, que te encontraram numa viagem de metrô, numa conversa de supermercado, num bloco de carnaval. Serão para sempre atraentes em nossas memórias.
Ao moço do bus 99 a caminho do bairro Floresta em Buenos Aires, um brinde, na minha memória, você continua lindamente desconsertado buscando músicas no celular e fingindo não ver meu olhar incisivo.
A Martín, do dia de San Patricio, um brinde, nunca soube seu sobrenome, não te pude encontrar no facebook.
Ao russo com quem dormi abraçada toda uma noite mas com quem nunca transei, um brinde, tenho certeza que teria sido ótimo, dormir já foi.
Ao cara do sobrenome alemão que me beijou pra me aquecer de um frio de outono, um brinde, posso sentir o calor daquele beijo até hoje. Bem mais fácil te beijar que pronunciar teu sobrenome.
Ao uruguaio que gritou " qué morocha, me caso!" em alguma rua da Colonia Sacramento, um brinde, mas não penso em casar...
Ao lindo venezuelano de uma disco em Puerto Madero, um brinde, e me desculpe por já estar erroneamente apaixonada antes de te encontrar.
Um brinde a todos os olhares que se cruzaram, que faiscaram, que prometeram. Um brinde à cantada sutil que alguém de muito bom gosto soube dar, ao papo bom que foi compartilhado, ao sorriso despertado, às faces rubras, ao cheiro envolvente, ao roçar de um toque que arrepia. Aos pequenos amores que alimentam o ego e nos fazem momentaneamente felizes. Que eles nos façam rir todos os dias, que eles nos façam saudosos a cada futuro.

Aline Alves




sexta-feira, 13 de março de 2015

A arte do desencontro - final

Domingo, 04 de janeiro de 2015, Lisboa, Portugal.

Enfim, era chegado o momento da partida. Deixar Portugal, um ao outro, sem saber como se rotularem. Que eram agora? Amigos? Inimigos? Ex-amantes? Não sabiam. Contudo, já não eram os mesmos. Já não eram a imagem outrora a milhares de quilômetros, já não eram os que se encontraram no aeroporto de Lisboa em um abraço terno, já não eram os que se entregaram com fervor em uma noite em Florença. Perderam-se demais ao longo desse encontro...
Era um dia lindo de sol na capital portuguesa. Havia ainda algumas horas a serem aproveitadas antes do adeus final. Comidinha, filminho, pipoca e uma boa dose de autocontrole. Como não brigar quando se queriam matar? Ela, por ele não ter sido nada do que ela imaginara e por tê-la cativado tanto sem querer ser responsável por isso; ele não lera O pequeno príncipe ainda. Ele, por ela também não ter sido nada do que ele sonhara. Ela era o seu sonho ao contrário, um sonho que se desfizera num beijo.
A viagem até o aeroporto era relativamente curta, não havia tempo para reconsiderações sobre todo o trajeto que se iniciara dia 17 de dezembro de 2014 e terminava quase vinte dias depois no mesmo ponto. Era um recomeço?

Em frente à área de embarque, os dois abraçaram-se para nunca mais. Um abraço que envolvia tudo o que não se podiam dizer, tudo o que não saberiam dizer. Ela, incompreensivelmente agarrava-se a ele, queria ficar ali para sempre, e as lágrimas saltaram-lhe sem freio, sem vergonha, sem pensar. Ele a estreitava em seus braços numa entrega, até então, negada. Em meio às lágrimas dela, ele a beijou, e ela quis que aquele beijo jamais acabasse. Ele lhe enxugou as lágrimas, consolava-a com os olhos e as mãos cheios de um carinho e de uma compreensão que ela tanto buscara durante aquela viagem. Enfim, encontrara, era, porém, demasiado tarde. No tardar da hora, desvencilharam-se obrigatoriamente. Ela não olhou para trás, ele também não, seguiram seus caminhos. Quem os visse ali, numa despedida tão doída e tão doce, julgaria, sem dúvida, tratar-se de um casal apaixonado. Quem não os terá invejado naquele momento tão inexplicado? Mas como o coração do outro é terra de ninguém, ela voltava pesada de ressentimentos e com o coração em frangalhos. Ele sentia-se enfim livre do peso de um sonho que não foi. De tudo, restou aos dois a certeza de nunca haverem-se encontrado.


quinta-feira, 12 de março de 2015

A arte do desencontro

Sábado, 03 de janeiro de 2015, Lisboa, Portugal.

Hora de despedir-se de Roma, Não puderam acordar cedo para um último passeio. Saíram, como sempre, já no limite do horário para o voo.
A viagem chegara a sua reta final. Haviam sido quase vinte dias de Europa. O velho mundo, o sonho de nove em cada dez não europeus. Mas para ela, era simplesmente como se não estivesse ali. Perguntava-se o que havia feito do sonho mais antigo, da euforia do primeiro momento, da visão e da sensação de tudo aquilo. Havia desperdiçado o seu sonho maior. Não amou um italiano nem um espanhol, nem mesmo comera uma pizza de verdade em Roma. Uma alma inundada de tristeza não reconhece a alegria ao lado, não a desfruta nem se deixa contagiar por ela. Sentia que tudo havia sido em vão. Havia cometido o pior dos erros, encolhera a própria alma.
Ao lado, ele escutava música e fingia dormir, alheio a toda a turbulência na mente dela. No último voo juntos, nada mudou. Ele seguia no seu mundinho, ela afundava em suas conclusões terríveis. Escrevia na tentativa de livrar-se de toda aquela angústia que lhe sufocava o peito. Escreveu durante todo o voo. Disse ali tudo que talvez jamais pudesse dizer, enquanto ele mantinha-se distante o suficiente para que nada daquilo pudesse chegar a tocá-lo.
No aeroporto de Lisboa, ela sentiu a dor do contraste. Naquele exato lugar, há pouco mais de duas semanas, tinha em si todos os sonhos do mundo. Vivera a alegria do encontro e abrira o seu coração para dar e receber o amor com que sempre sonhara, o amor que ele conquistara, o amor que ele cativara pacientemente e que ela decidira permitir-se sentir.  Naquele momento, tudo era possível.  Agora, via destruída toda a ilusão que ele despertara nela. Não encontrava melhor palavra para descrever-se que infeliz. O céu lisboeta pintava-se de laranja num crepúsculo envolvente e romântico. Ela olhava, sentia e não podia sorrir. Ao seu lado, ele tentava objetivamente reencontrar o caminho ao hotel. Ônibus, metrô. Ela deixava ele decidir sempre, não se importava, não tinha opinião, não tinha vontades.
No hotel, um banho e o choque de que realmente era o fim a fez desejar fazer algo bom, divertir-se um pouco. Vestiu-se para ele, cuidadosamente. Pôs a melhor lingerie e o melhor sorriso. Jantaram num bom e tradicional restaurante português. Embriagaram-se em meio à Avenida da Liberdade e voltaram mais leves ao hotel. Ensaiaram uma dança que não encaixou. Ela bailava com a graça e sensualidade só permitidas a uma morena brasileira depois da meia-noite. Ele era o que era, um físico supertalentoso e meio antissocial que dançando pouco se distinguia de um robô não articulado. Ela quis rir, mas sabia que o constrangeria e, ao contrario dele, sempre cuidava para não magoá-lo.

Preparou-se para a última noite. Queria esquecer tudo e pertencer a ele uma vez mais. Vestiu seu melhor olhar, seu melhor sorriso e seu decote mais profundo. Ele não resistiu, depois de três dias longe do corpo dela, ele lançava-se a ele com um desejo que era quase fúria e ela sentia o poder da sua feminilidade a envolvê-lo. Aquilo produzia nela uma sensação indizível. Mas logo ele já não queria apenas penetrá-la e compartilhar prazer, queria usá-la a seu bel prazer, do seu jeito, e ela não viu prazer nisso. Disse não e quase vacilou, mas quase vinte dias eram suficientes para saber que ele não valia o sacrifício. Quando viera, estava disposta a dar a ele cada rincón do seu corpo, cada centímetro de sua alma. Ele, porém, negara-se a provar da sua alma, do seu amor. Ela, pensando em tudo isso, resolvera enfim pensar em si e negar-se a  ele. Impedido de sua vontade, ele agiu como o menino mimado que sempre fora e a rechaçou. Ela, magoada, afastou-se, dormiu sozinha outra vez, mas dessa vez, ela o odiava demais para chorar.


domingo, 8 de março de 2015

A arte do desencontro

Sexta-feira, 02 de janeiro de 2015, Roma, Itália.


Terceiro dia em Roma e ainda não haviam visto muito. O cansaço os consumia. O turismo estava mais para obrigação que para diversão. Estavam em Roma, em pouco tempo não estariam mais. Havia muito o que ver e não dava para ficar na cama a curtir toda a preguiça que vinha com o inverno. Caminare a ver o Vaticano!
O clima entre eles não era dos mais amistosos. Ela anulava-se ao máximo para não incomodá-lo, ele incomodava-se sempre. Com a forma como ela o olhava, como caminhava, como mantinha-se desatenta. Toda ela era um incômodo, ela sentia, e desejava poder ser invisível.

Tranvia, metrô, Coliseu. Fotos, fotos, fotos. Dele, porque ela já não se importava. Uma dor começou a importuná-lo, tinha a cabeça em colapso. Antes de qualquer coisa, ele a tratou mal. Ela aceitou o maltrato diminuindo-se um pouco mais, já quase não existia. Preocupava-se com ele. ¿Qué le pasaba que le dolía tanto la cabeza? Cuidou dele. Tratou de achar o camino, apesar de nunca prestar atenção e ser péssima com mapas. Amava-o apesar de tudo e não queria que nada de ruim lhe acontecesse.
Foi um dia de distâncias. Ela acreditava que as religiões mais afastavam que reuniam as pessoas. No Vaticano não foi diferente. Em meio ao mundo sagrado católico, eles caminhavam no meio de uma multidão que nada mais podia compartilhar. Todos de olhos e ouvidos atentos.  Foi um dia de paz em meio a tantos passos e burburinhos, além da voz da guia a gritar-lhes nos ouvidos. Quase não se falaram, não puderam brigar. Mas, uma hora a visita acabou e eles foram expulsos do paraíso dos mundinhos inviduais e recomeçaram a incansável desarmonia. Vencida, ela resignou-se uma vez mais em busca de alguma paz. Sempre era melhor quando escolhia não falar, não brigar, não expor-se. Por dentro ela ia definhando, por fora, a expressão entregava-lhe os pensamentos. Tinha o sorriso cada vez mais triste e dos olhos sempre reluzentes, encantadores, expressivos não escapava nada mais que um pranto oculto.

No último dia em Roma, não houve amor, não houve carinho, não houve perdão. Na cidade mais sensual da Itália, não houve sexo. Não houve nada. No meio da noite, ele quis tocá-la, mas algo o fez recuar, ela não insistiu. Adormeceu na solidão, entre mágoas e desejos.