quinta-feira, 25 de junho de 2015

Um brinde

Um brinde a todos aqueles amores que poderiam ser, não àqueles que geraram sofrimentos tantos que você cansou de tentar e desistiu de fazer dar certo, mas àqueles que simplesmente não puderam ficar, que te encontraram numa viagem de metrô, numa conversa de supermercado, num bloco de carnaval. Serão para sempre atraentes em nossas memórias.
Ao moço do bus 99 a caminho do bairro Floresta em Buenos Aires, um brinde, na minha memória, você continua lindamente desconsertado buscando músicas no celular e fingindo não ver meu olhar incisivo.
A Martín, do dia de San Patricio, um brinde, nunca soube seu sobrenome, não te pude encontrar no facebook.
Ao russo com quem dormi abraçada toda uma noite mas com quem nunca transei, um brinde, tenho certeza que teria sido ótimo, dormir já foi.
Ao cara do sobrenome alemão que me beijou pra me aquecer de um frio de outono, um brinde, posso sentir o calor daquele beijo até hoje. Bem mais fácil te beijar que pronunciar teu sobrenome.
Ao uruguaio que gritou " qué morocha, me caso!" em alguma rua da Colonia Sacramento, um brinde, mas não penso em casar...
Ao lindo venezuelano de uma disco em Puerto Madero, um brinde, e me desculpe por já estar erroneamente apaixonada antes de te encontrar.
Um brinde a todos os olhares que se cruzaram, que faiscaram, que prometeram. Um brinde à cantada sutil que alguém de muito bom gosto soube dar, ao papo bom que foi compartilhado, ao sorriso despertado, às faces rubras, ao cheiro envolvente, ao roçar de um toque que arrepia. Aos pequenos amores que alimentam o ego e nos fazem momentaneamente felizes. Que eles nos façam rir todos os dias, que eles nos façam saudosos a cada futuro.

Aline Alves