quarta-feira, 19 de setembro de 2012

A arte do encontro XVI


          Demorou uns cinco segundos para sair da inércia e devolver o cumprimento de forma quase engasgada: ! Hola! Nem podia acreditar que ela o notara de pronto e não tardara em falar-lhe. Depois do primeiro susto de um início de conversa que havia pensado ele ser tão difícil, continuaram a charla sem nenhum entrave. Ele resolveu perguntar-lhe uma vez mais sobre o livro, fingindo algum interesse, mas ela já notara que ele não era dado a romances literários, e enveredou por outros caminhos. Perguntou-lhe sobre a prova do dia anterior e ele mentiu  ter se saído razoavelmente bem. Ela fingiu acreditar e ficou ali, a fitar nele os traços delicados e fortes. Ainda não havia notado, como ele era bonito... De repente deu-se conta de que se aproximava do seu destino, precisava descer. Perguntou a ele aonde ia e ele respondeu que a qualquer lugar, estava à toa naquela manhã de inverno. Ela então convidou-o para assistir à sua aula e ele respondeu que sim tentando não demonstrar tanto interesse.
A aula o entediava um poco. No começo, fixou-se na voz dela, que era realmente linda. Aquela boca e aqueles olhos nem precisavam falar, no entanto, cantavam, e como era lindo vê-la cantar. Mas, depois de alguns minutos, a monotonia daquela melodia começava a deixá-lo sonolento. Como dormira pouco por esses dias! Aguentou a duras penas até o final. Finalmente!
Ela quis saber se ele havia gostado, ele que nunca aprendera a mentir muito bem, preferiu um "re lindo cantás!" . Ela entendeu, pela expressão pouco entusiasmada dele, o que se passava  e não fez mais perguntas. Caminharam até a saída e ele aproveitou para convidá-la para um lanche. Procuraram um supermercado, compraram algumas guloseimas e foram descansar em um dos parques de Palermo. O sol brilhava imponente, e apesar do frio, o dia estava lindo, o céu estava azul e havia flores brincando em seus lábios. De repente, a conversa cessou, a comida acabou e eles ficaram ali, a olhar-se. Como os olhos dela brilhavam, como a boca dele a chamava... E olhos foram se aproximando mais e mais até que os lábios se tocaram. Nossa! Que beijo! Ele se sentia flutuando. Aos quinze anos, não era seu primeiro beijo, contudo, nunca havia provado nada igual. Despertou do beijo como saído de um caleidoscópio. Deparou-se com aquele olhar, sorriu para ela e pôde, enfim, acreditar que existia. Quis parodiar em pensamento o filósofo com "beijo logo existo", preferiu porém perder-se em outros pensamentos enquanto abraçado a ela sentia o calor do sol a misturar-se ao sangue de suas veias.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A arte do encontro XV


No dia seguinte, teve de arranjar uma desculpa para sair no horário de encontrá-la, assim, casualmente... Afinal, por enquanto, não havia mais aulas. Por pelo menos duas semanas, não precisaria acordar cedo. E era tão bom dormir até tarde naquele friozinho... Mas era preciso vê-la, era NE-CES-SÁ-RIO! Não podia perdê-la de vista uma vez mais.
Plenas férias de inverno e ele estava de pé antes da mãe. Ela nem pode acreditar quando levantou e o viu à mesa tomando café e já arrumado para sair. Perguntou-lhe entre espantada e incrédula sobre o porquê de tal atitude, e ele respondeu simplesmente que precisava, coisas de um amigo da escola. Àquela hora da manhã e ainda sonolenta, ela deu-se por satisfeita e esqueceu as indagações.
Antes de sair, ele olhou-se no espelho. Depois de tantas noites mal dormidas, seguia com as olheiras, porém não havia o que fazer, era esperar as próximas noites e descansar. Saiu pelas ruas como se nem sentisse aquele frio julhino de cortar os ossos. Sentia-se aquecido por dentro, com o coração aos saltos. A ansiedade vinha-lhe a boca num roer de unhas incontrolável. A estação! Bom, dois minutos para a chegada do metrô.
Entrou no vagão de sempre, o terceiro. Três, número primo, seria sorte ou azar? Procurou-a. O moço com o violão a caminhar de um lado para outro lhe atrapalhava a visão. Isso lá é hora de fazer música? Uma vez mais percorreu os olhos pelo vagão, e, perto de uma das portas, um livro resplandecia de delicadas mãos. Passou o olhar pelos braços, o colo e foi dar com aqueles olhos que perdiam-se distraídos da leitura, como se procurassem algo que pudesse ajudá-los a escrever sua própria história.
Ele notou sua distração, acercou-se, mas não pode sentar-se ao lado dela, pois o assento estava ocupado e teve de contentar-se em poder ficar de pé ao seu lado. Antes de conseguir cumprimentá-la, ela o notou: ! Hola! ¿Cómo andás?