sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Diário de Viagem - 8º dia

Amontada
te verei ainda entardecer de cores?
estamos todos cansados
mas respiramos, transmitimos
aqui se faz arte
arte de artista de verdade
esculturas em vozes
palavras em versos
mais um dia, menos um dia
a tarde cai bela, colorida
a águia espreita-me
sinto o bater de suas asas quase a me tocar
Fazer o que...
já entreguei-me às unhas, ao bico, aos olhos
ponho-me a esperar
a noite é longa, é fria
deixar-me-á aqui no alto da montanha
logo quando anoitece pela última vez?
Zero hora.
dormem os pássaros
a águia retorna, corta-me as amarras
prendo-a no ninho
dou-lhe de comer, mato-lhe a sede
sacio-a.
Inerte, deseja-me boa noite.
tenro gesto.
a noite fica curta,
em meio aos gritantes raios de sol
põe-se a dormir como se fosse morcego.

Diário de Viagem - 7º dia

que sono, que vontade
de dormir
te acalma dia
te esconde só mais um poquitinho
levanta que o mundo não para.
boa tarde meu doce e malicioso sorriso.
Ao trabalho!
Ai Cristo, é bom mas é ruim
vê se dorme menina!
ser humano
destino trágico
adormeço
e durmo.

Diário de Viagem - 6º dia

Cansaço...
Terça ainda?
Fazer o que, não sou de aço.
não dorme-se aqui.
espreita-me uma águia
em que lhe cravo as unhas
e que me crava os dentes.
dá pra parar de pensar bobagem!
Que fazer, a águia levou-me
deixou-me prisioneira
quedo-me aqui com a iminente sensação de ser devorada.
à noite, a águia acaba voltando...

sinto a sua inquietação à distância
seu rosto, suas mãos, tudo o denuncia
alguém ronda a sua presa
nem vê que ele não tem boca e olhos que falam por si
e um jeitinho de enfeitiçar tão presente em ti

vem águia, devora-me
a natureza te fez águia e me fez presa
e o destino me fez reluzir em teus olhos.

Diário de Viagem - 5º dia

de volta ao trabalho
fazer o quê?
tanta gente, tanta sede de saber
e a gente brinca, ouve, se diverte
tenta fazer do saber um deleite
e a gente se sente recompensado.
e a noite, espera-me já?
um pouco mais de trabalho
amanhã é um dia a mais
não evapora.
ufa, acabei até amanhã...
avisto um anjo
que fala-me entre asas negras
e um semblante iluminado
não deveria
mas ponho-me a vampirizá-lo
enquanto ele morde-me o pescoço.

Aline Alves

Diário de Viagem - 4º dia

Ai que o dia não amanhece às sete
só às nove,dez
pode-se escolher
e a manhã recebe-me com um beijo,
adentra meu quarto,
fica lá
vai embora e continua lá.
vai-te dia
traz a noite
que faz poesia.
minha poesia respira ao lado
num contorno de lábios
num encaixe de mãos e braços
que de tão fortes, de tão grandes
cabem dentro de uma boneca de porcelana.

Diário de Viagem - 3º dia

um dia a mais
melhor ainda, um dia a menos.
como é bom te ver
bom dia, dia!
trabalha que Deus ajuda
blá, blá, blé...blu.
descansar enfim?
pra que descanso se o mundo é manso
e já que se acaba.
a voz me chama
numa malícia de mistura de sotaques
irresistível.
a lua é linda
a cidade finge dormir
e eu me perco hipnotizada por um Davi
que é de carne, de cheiro e de toques
e passeia por mim como se fosse água.

Aline Alves

Diário de Viagem - 2º dia

sobrevivi, respiro ainda
o dia e a noite acumulam-se em minhas costas
e o rosto surge uma vez mais
tão lindo quanto uma escultura clássica
tão doce quanto chocolate ao leite.
sossego enfim
ó Deus, dorme-se aqui
um pouco mais detrabalho
descanso real, sim, sim.

Aline Alves

Diário de Viagem - 1º dia

ânsia, é essa a palavra
música, gente, entra, sai
paisagem, janela
o sol se esconde, a chuva despenca
e a gente olha, pensa, pensa, olha
perde-se
e não chega
uma, duas, três...cidades, idades
enfim, o enfim
é aqui, inacreditável, é então é
mais gente, o desconhecido
eis que encontro um belo rosto
reluz.
olhos doces, boca ardente
e uma voz que me chamava...
o rosto belo fica pra trás
momentos de indescanso
é noite e não durmo.
Aline Alves